Crítica: “Game of Thrones”, David Benioff e D.B. Weiss

Isabel Castro

E aqueles que, por serem menos mauzinhos, passam a ser os bons da história, mesmo que matem à machadada os inimigos, bem piores do que eles. O título diz tudo: estamos perante uma guerra de tronos, ou várias guerras por um trono, num mundo fantástico que nasceu na literatura (pela arte de George R. R. Martin) e passou para a televisão, com a bênção da HBO e o trabalho criativo de David Benioff e D. B. Weiss.

Game of Thrones (2011) acontece algures na época medieval – e o contexto pode, admite-se, não ser particularmente convidativo. Assim como serão pouco aliciantes os primeiros minutos do episódio inaugural: há uns homens que são mais monstros do que outra coisa qualquer, que são mito e ameaça, e que povoam toda esta história. Pressentem-se logo desde o início e as almas mais sensíveis, por entre neve, sangue, foragidos esfarrapados, cavalos e espadas, poderão querer ficar por aqui.

Mas vale a pena ver mais cinco minutos, e mais cinco, e outros cinco, tentar perceber onde tudo isto vai dar. É assim que damos por nós nos domínios de Lord Eddard Stark, a quem a família (e o rei) trata por Ned. Stark (Sean Bean) é o patriarca do clã que protagoniza a primeira série, de dez episódios, deste épico no mundo da fantasia, sem maravilhas. É de Ned que acabamos naturalmente por gostar, mesmo que faça rolar cabeças – afinal, são as cabeças dos muito maus.

Uma vez no mundo de Lord Stark, torna-se difícil esperar pelo próximo episódio: a teia de acontecimentos, o equilíbrio entre humano e fantástico, os extraordinários cenários e o casting feito com precisão levam-nos a querer ver mais, a querer saber o que acontece a seguir. E fazem-nos esquecer que é um mundo irreal aquele que para ali vai: não existem glaciares que escondem a ameaça do Inverno, do desconhecido, não existem tribos que se aliam aos louros filhos herdeiros de um rei deposto com três ovos de dragão na bagagem. Não existem dragões.

O lado humano vem da forma como as famílias que lutam pelo trono se relacionam, do modo como a interacção acontece, do jeito que se encontrou de colocar a fantasia numa perspectiva real. O lado humano vem também de um admirável conjunto de actores (ainda sem idade para saírem à noite) que, nos tempos medievais em que representam, significam ascensão e queda, vida e morte. A escolha dos miúdos valeu à dupla de produtores rasgados elogios da crítica.

Em meia dúzia de linhas, a história é simples: Lord Stark é chamado pelo rei à capital de um império desavindo, que só não é mais bélico porque as famílias que o controlam lá se vão entendendo. Mas a ameaça da guerra é permanente – entramos no terreno da intriga palaciana, do veneno nas bebidas, dos perturbadores amores secretos, dos filhos bastardos, do sexo que acalma a perspectiva da morte. Stark deixa a norte a sua vasta prole, mas leva duas filhas: uma prometida ao filho do rei (sem qualquer piada nem interesse); outra mais nova, arisca, leal, cheia de dignidade (Maisie Williams é a Arya que nada tem de medieval).

O perigo, é dos filmes, mora em casa. O trono de aço é cobiçado por quase todos aqueles que andam em redor dele – e aqui temos parte da intriga. A restante vem do tempo quente, do Verão de uma tribo que empresta cor a uma série filmada com uma extraordinária frieza.

Mas o frio a sério está no norte do mundo, junto à parede de gelo que esconde a ameaça e onde vivem os condenados a protegerem o reino das bestas invisíveis. Uns foram forçados a serem os cavaleiros negros desta história; outros são-no por opção. E mais não se diz.

Game of Thrones foi dado a conhecer ao mundo em Abril do ano passado e estima-se que três milhões de pessoas tenham acompanhado a série, bem recebida pela crítica e espectadores. O segundo take começou neste fim-de-semana.

Pormenores técnicos de lado – que engrandecem, sem dúvida, uma produção cuidadosa – o trabalho de David Benioff e D.B. Weiss tem a virtude de nos transportar para uma dimensão que não existe através da aproximação ao que é nosso. Em todas as épocas, transportamos o peso das escolhas, as consequências das opções, as dificuldades de vivermos com e sem elas. O mundo não se compadece com quem fica à espera e há que escolher de que lado se está: se dos maus, dos muito maus ou daqueles que, bem vistas as coisas, são bonzinhos o suficiente para até termos saudades deles.

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