A arte de coleccionar selos está a desaparecer com os seus amantes mais velhos

Filipa Mora

O primeiro selo português foi impresso a 1 de Julho de 1853. Apesar de centenária e do valor cultural inerente, a filatelia está a desaparecer com os coleccionadores mais antigos. Fomos conhecer as lojas mais emblemáticas do Porto e tentar descobrir o estado da arte de coleccionar selos, onde os mais jovens são cada vez mais raros.



Tornou-se coleccionador por acaso. Devia ter 10 anos quando o primo Zé Artur lhe mostrou um selo de D. Afonso Henriques. Pensou que tinha pertencido ao rei. Armindo Pereira, agora com 63 anos, diz que “qualquer coisa pode acontecer para nos tornarmos coleccionadores”. Para ele, foi o acaso. Foi no Brasil, onde esteve mais de duas décadas, que a paixão de infância deixava adivinhar o trabalho que o esperava em Portugal, quando regressasse no pós-25 de Abril. Ainda do outro lado do Atlântico, em Nova Iguaçu (Rio de Janeiro), começou a trocar correspondência com vários coleccionadores da Europa de Leste, longe de imaginar que a polícia política brasileira DOPS andava de olho nele por “outros motivos”. Estavam enganados, “eram só selos”.

Armindo era um jovem adulto com 20 e muitos anos. O episódio marcou-o de tal forma que esteve quase para desistir e vender a colecção. Se o tivesse feito, seriam os selos de pintura, os preferidos então, que lhe custariam mais. Para a família, a sua paixão era um “assunto estranho”, preferiam-no na área da restauração, a trabalhar no “botequim” do pai. Foi dedicando o tempo que lhe restava na filatelia, era uma espécie de “freelancer”. Diz que foi sem se aperceber que começou por fazer “umas feiras” e, quando deu conta, o coleccionador já começava a ser comerciante. Mas Armindo Pereira, como muitos na altura, tinha o sonho de voltar a Portugal. E assim juntou dois sonhos, o regresso à terra natal e o verdadeiro risco em abrir o n.º 277 da rua de Cedofeita.

Há 30 anos, chamou “Líris” à loja de “Filatélica e Numismática”, como comprova a placa, a única que a denuncia, actualmente. Uma homenagem em forma de justaposição às duas filhas nascidas no Brasil, a Lídia e a Íris. Agora, a loja passa despercebida, chega a pensar-se que as montras corridas protegem os selos e os outros conteúdos do sol mas, afinal, é ele que gosta de ter o seu tempo – os clientes fiéis têm o seu contacto e é da maneira que “não concorre com o negócio das filhas”, que seguiram os passos do pai, ali perto, na Travessa de Cedofeita.

A crise
Quando Armindo chegou, a mais antiga loja de filatelia já existia uns metros ao lado, no n.º 177, “A Casa” já estava arrumada desde 1910. “Aqui sempre foi só selos”, assegura Isaura Pereira, actual responsável pela loja centenária que herdou dos sogros, os primeiros donos. A renda que paga ainda é no nome do sogro. Mantém tudo conforme foi criado. As dezenas de mini gavetas, ao fundo da pequena loja, guardam milhares de selos. Nem a altura das mesmas dificulta a vida de Isaura – “não há escadotes?”, responde prontamente. Quanto ao número de selos, “não faz a mínima ideia. Tinha de os contar.”

No interior, os armários e portadas de madeira verde que outrora transportavam rádios, são os mesmos, apesar das tentativas de compra de algumas pessoas que por ali passaram. Isaura “não vende nada a ninguém”. E selos, pelos vistos, também já não vende tantos. “Isto não é de comer, não é a prioridade”, desabafa. Apesar de há pouco tempo ter vendido um dos selos mais procurados e caros em Portugal – o n.º 4, de 100 réis de D. Maria II – há dois dias que não tem movimento algum. Se não fosse a reforma, não sobrevivia da filatelia. Desde há três anos que sente mais a crise, como Armindo Pereira. Há clientes fiéis, mas alguns desses já não precisam da Casa de Isaura, “já vão aos correios comprar as novidades”. “Há muita gente a fazer guerra. As feiras e os CTT roubam muito às casas filatélicas”, remata.

Os CTT são responsáveis pelas “novidades” referidas por Isaura, emitem anualmente cerca de 100 selos, e contam com cerca de 20 a 30 mil assinantes no serviço de Filatelia, um número incerto mas confirmado pelo presidente do Instituto de Expertização de Filatelia Portuguesa, Miranda da Mota (INEXFIP), cliente da Líris há 30 anos. Miranda da Mota é um estudioso e investigador nato, não obstante os vários cargos de jurado e coordenador de catálogos especializados que ocupa na área. Com 66 anos, colecciona selos há mais de 50. Diz que os primeiros selos costumam ser sempre os do país, só mais tarde se preferem os temáticos. Tal como Armindo Pereira, os pais nunca fomentaram a paixão filatélica. Pelo menos, directamente. Foi através dos pais, professores primários que pediam aos alunos para enviarem cartas para as missões, que arranjava os selos. Foi o ponto de partida para todo um currículo filatélico de um engenheiro químico e antigo docente na Escola Superior de Educação.

Ambas as lojas partilham uma arquitectura interior semelhante, são pequenas e sente-se o cheiro a antigo, aos anos e história que por ali passaram. Na Líris de Armindo, além dos selos expostos e dos milhares organizados nos classificadores, também é possível encontrar livros. Do Código Comercial a Balzac, são vários os livros que se espalham pelo armário que encontramos do lado direito da sua loja. O balcão acompanha o comprimento da loja e o espaço para trabalhar é pouco, entre tantas pastas.

Onde estão os jovens?
Miranda da Mota está ao balcão da Líris com Armindo quando chega, perto da hora de almoço, outro amigo, Zé Alberto. Mas com selos, já não quer nada. “Divorciei-me totalmente da filatelia”, adverte durante o almoço que reúne os três. Se fosse terça-feira, o almoço juntava certamente mais amigos, coleccionadores de selos há décadas mas ali “mulher não entra”. Zé Alberto dedica-se agora à numismática, numa loja que tem na Maia. Quanto aos selos que coleccionou durante 30 anos, vendeu a colecção toda. E mais não diz, para “não ferir susceptibilidades.”

Entre as garfadas na carne de porco à alentejana, a conversa à volta da filatelia tem vários pontos comuns que Isaura referira no interior do 177. A Internet é um dos principais motivos apontados pelos coleccionadores para a alteração profunda sentida nos últimos anos. Os leilões profissionais começam a ser preteridos pelos da Internet, uma vez que muitos destes não têm custos acrescidos (catálogo, impressão) nem base de licitação, o que “pode ser sintomático do mercado estar mau”, ouve-se na mesa, entretanto. “Chegam a pôr-se lotes à venda sem se ter noção do valor. Perdeu-se muito. As raridades encontram-se nos leilões”, diz Miranda da Mota, que costuma frequentar leilões profissionais em variados países, fugindo da maioria dos filatelistas portugueses que “não são de competição”.
A competição implica obedecer a um conjunto de regulamentos nacionais e internacionais definidos pelos organismos competentes, como a entidade máxima nacional, a Federação Portuguesa de Filatelia, onde Miranda da Mota é jurado ou a A.I.E.P (Association International des Experts en Philatélie), da qual também é membro.

Quem frequenta os leilões profissionais, afinal? A elite filatélica, cujo perfil, normalmente, é o de pessoas com um índice de cultura geral elevado, investigadores e com capacidade económica que suporte os custos que a competição implica. Seja profissional, na Internet ou numa feira, a controvérsia dos valores que determinados selos atingem está na mesa. Os três dizem que depende sempre da relação entre o comprador e vendedor e, acima de tudo, das condições em que o selo se encontra, seja do papel que facilmente se danifica pelo seu principal inimigo, a humidade, seja pelo mau manuseamento, entre outros.

A política de fixação de preços – em Portugal, os catálogos da Afinsa são publicados sob a orientação técnica do Núcleo Filatélico do Ateneu Comercial do Porto – é muito delicada pelos motivos referidos, por resultar de sucessivas alterações e, acima de tudo, por ser uma “área muito subjectiva”, como explica Miranda da Mota. Além da crise actual ser apontada como um dos factores determinantes para o crescente afastamento dos amantes da filatelia, a falta de interesse da camada mais jovem é aquilo que mais preocupa a geração sexagenária. Uma boa estratégia, segundo os três amigos, podia passar pela criação de clubes filatélicos nas escolas como ainda acontece em Barroselas (Viana do Castelo). “Na Rússia, antes da queda do muro de Berlim, havia cadeiras de filatelia”, desabafa o antigo docente.

A excepção
Para eles, passa por uma forma de mostrar a cultura e compreender os factos históricos portugueses assinalados em emissões filatélicas como, por exemplo, a implantação da República portuguesa, tema aliás escolhido para a Mundial de Filatelia que Lisboa recebe, pela primeira vez, em Outubro deste ano.
Como em tudo, a excepção faz a regra e as filhas de Armindo Pereira são essa excepção. Formadas em História, Design Gráfico e uma delas quase em Gestão, acabaram por seguir o negócio do pai. A Collectus é pretendente a rival da familiar Líris – mas, ali, as rivalidades nunca entram. “O pai ajuda sempre”, graceja, orgulhosamente, Íris, a mais velha das três irmãs que abriram há cinco anos a loja, na travessa de Cedofeita.

Mal se entra, sente-se o ambiente familiar que já se suspeitava. A mãe Lurdes está na loja e acusa-se conversadora. Fala da ida para o Brasil, do regresso a Portugal, de como a vida foi difícil e da força de vontade do marido que “seguiu o seu sonho”. Já existiam algumas casas, não conheciam ninguém nem tinham o capital relacional por vezes necessário para o negócio. Na altura, também não era fácil arrendar o espaço. “Se fosse outra pessoa, tinha desistido. Ele quando era miúdo até de luz acesa ficava a ler, às escondidas”, orgulha-se Lurdes. “O pai é um autodidacta”, confessa a filha mais nova, Inês, enquanto vai mexendo nos selos com uma pinça.

Talvez tenham herdado do pai, a força de vontade e persistência mas o esforço pelo trabalho sempre foi um valor incutido às filhas, como confirma a mãe. A urgência em desafiar o desemprego e terem crescido rodeadas de selos que, na infância “eram um castigo”, apesar de “nunca terem estragado um único ao pai”, espoletaram a decisão da abertura do espaço inicialmente pensado para uma empresa de design gráfico. Ainda assim, Íris deu o ar de sua graça na identidade da marca. “Estas coisinhas todas fui eu que fiz”, vangloria-se enquanto aponta para as várias capas de selos no balcão e logótipo da marca.

O espaço é arejado e respira os ares revivalistas das antiguidades que se encontram. Há latas de bolachas, livros variados, bandas desenhadas Tio Patinhas, caixas de cigarros antigas, miniaturas, postais. Ali há de tudo um pouco. Se apostassem num só artigo, “não conseguiam vingar, justificam”. Todas consideram que estar bem situado é fundamental para o negócio e “ali há muitos alfarrabistas e lojas de antiguidades”. Mas também estão na Internet, através de um blogue e no Facebook.

A esperança
“Tenho tudo. Ai, que tristeza”, ouve-se entretanto. É o Sr. Mendes, colecciona postais antigos do Porto porque gosta de ir vendo as mudanças durante os anos que passam. E já são bastantes. Conhece as filhas do Sr. Armindo desde pequenas e a relação revela a cumplicidade entre eles. Não é o único. O vínculo que se cria com os clientes de há décadas transforma-se em cumplicidade e, em alguns casos, em amizade.

Este sentimento parece ser comum em várias lojas do Porto. Seja o pai que frequenta a Simarro desde criança e, agora, leva os filhos até lá, esperançado que sigam a sua paixão, seja o lanche que o António – um “aprendiz de coleccionismo” de selos sobre aviação – leva a Maria Ascensão, funcionária há 22 anos, na Afinsa. Clientes que se tornam amigos pelo amor à arte de coleccionar selos. Uma arte a desaparecer com os seus amantes mais fiéis. Contudo, para uns poucos ainda há laivos de esperança. O filho de Íris, ainda bebé, passa as tardes na loja rodeado de selos. Por enquanto, limita-se a dormitar.

Os dados e as citações desta reportagem foram recolhidos entre Julho e Setembro de 2010

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