Sr. Teste: um movimento sem tempo a propor poesia e ligações

Sílvio Mendes

As livrarias começam a deixar de ser um ponto de encontro entre pessoas. Sr. Teste transforma os próprios leitores no ponto de encontro. Anda a entregar-lhes livros em mãos por Lisboa e propõe-lhes uma «resistência pacífica mas não passiva». E como há muito mais que livros para ler, promete outro tipo de «intervenções no dia-a-dia».

Naquele tempo era comum encontrar-se o Sr. Teste a passear pelas ruas de Lisboa com um saco de pano ao ombro, cheio de livros. Saía de casa, apanhava um comboio suburbano até Lisboa e começava o seu percurso imprevisível de entrega de encomendas a alguns leitores.

Atentemos nesta descrição de um dia típico na vida de Sr. Teste: Início das entregas ao início da tarde. No metro, entre o Marquês do Pombal e o Rato, encontra uma leitora que lhe encomendara Nabokov. Conversam. No Rato, encontro casual com outra leitora. Conversam. Depois, encontro com o Irmão Karamazov, que também lhe compra livros. Conversa sobre surrealismo, vinda «do nada». Segue-se um percurso de quase uma hora do Rato até ao Chiado – os tempos do diálogo – e a tarde termina na Brasileira a discutir psicologia, filosofia, literatura com mais leitores. Termos que ficavam dos debates desse dia: «implícito», «stream of consciousness» e “inclinação natural».

Sr. Teste inventava também outras formas de fazer chegar os livros aos leitores. Houve um livro deixado em plena rotunda do Marquês do Pombal. Chegou ao seu destino. Outros eram colocados no Café Tati, no Cais do Sodré, ou na loja de discos Trem Azul, também lá perto, para serem levantados pelos seus novos donos. Mas os movimentos não se ficavam pela geografia da capital: «também tivemos pessoas de fora que vieram a Lisboa de propósito para receber um livro», conta-nos.

Quem é o Sr. Teste?

Estávamos no ano de 2012, época de crise monetária internacional em que os polícias ainda batiam à bruta, e o Sr. Teste multiplicava personalidades em nome de uma troika em manifesto: «ser em potência, ser em criação, ser em amor», resume a ideia que dá alma ao movimento. Sr. Teste é, então, o cognome de cinco elementos (número com potencial e intenção de multiplicação) unidos pela ideia da poesia, da arte e das ligações.

«Cinco leitores no sentido mais amplo da palavra», como nos explica um deles, com percursos pessoais diversos que passaram por (e prepare-se que vem aí lista) livrarias, alfarrabistas, música, imagem, fotografia, ioga, dança, teatro, filosofia, física quântica, corrida… Cinco leitores que acreditam «na magia humana como ponto de contacto» e se unem através de uma crença essencial: dos pontos de intersecção entre várias pessoas e ideias podem nascer coisas boas: intervenções, objectos de arte, simples conversas – a ampliação do gesto artístico de cada um.

No início, o Sr. Teste vendia livros em segunda mão. Estávamos no tempo em que ainda havia internet e as newsletters do Sr. Teste a promover os livros – partilhadas tanto no Facebook como no Blogger e no Gmail – rapidamente se transformavam em encontros com os leitores interessados. «Começou com os livros porque era a base das ligações entre as pessoas», explica-nos Sr. Teste (que, curiosamente, tem o mesmo nome de uma personagem e livro de Paul Valéry).

O que faz o Sr. Teste?

«As livrarias eram um ponto de encontro e deviam continuar a ser. Agora, o ponto de encontro são os leitores». E fica explicado o porquê de o Sr. Teste se ter virado primeiro para os livros. «É uma espécie de intervenção.» Entrega livros em mãos, tendencialmente em jardins, e dá dois dedos de conversa com cada leitor. «Temos atenção, falamos, criamos um conceito.»

Em Abril de 2012, longínqua data em que avistamos o Sr. Teste pela última vez, os planos passavam já por outros palcos. «A ideia é o Sr. Teste funcionar como um meio para as pessoas fazerem o que têm na cabeça.» Na agenda tinha já vídeos, performances, fotografias, participação em revistas. Como intenções de futuro, a vontade de descobrir novos autores, publicá-los e  ainda organizar concertos e happenings. As certezas: continuar as «intervenções no dia-a-dia, sem programação», o que continuaria a passar, é certo, pela entrega de livros, que, no fundo, era resumido desta forma: «Quando vou entregar livros é como o leiteiro, mas tenho um produto que gera mais paixões, mais ideias. O discurso pode parecer hermético, mas as nossas acções são acessíveis, são do dia-a-dia».

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