Crítica: “Places”, Lou Doillon
Ana Leorne

Não são raras as vezes em que um EP faz adivinhar um excelente álbum de estreia e depois as expectativas saem goradas. Felizmente, esse não é o caso de Lou Doillon.
O EP I.C.U. (Barclay/Universal Music France, 2012) saiu este Verão e, tal como dissemos aqui, só era prelúdio de coisas bonitas e boas – uma voz mais arranhada, um estilo mais despreocupado que o da meia-irmã Charlotte, uma composição sem pretensões mas também sem apostar demasiado no facilitismo.
E no início deste mês, eis que sai o tão aguardado Places. Sem grande fogo-de-artifício – um artigozinho aqui e acolá na Les InRocks e pouco mais – e com um close-up de Doillon como capa, as 11 faixas não se afiguram nem de mais nem de menos. E há de tudo, desde a pop mais suave de I.C.U., Devil or Angel ou Questions & Answers (curiosamente, as três faixas escolhidas para integrar o EP) a exercícios mais densos como Defiant, Jealousy, Same old game ou a faixa-título Places, cuja ambiência de poesia nos remete para Patti Smith – e isto dito sem ponta de sacrilégio.
Mas o mais engraçado é que de cima dos seus tenros 30 anos, Lou Doillon soa a quem já anda nisto há muito tempo. Houve pouco tempo de ensaios, mergulhou de cabeça de imediato num álbum fenomenal que por vezes soa mais a Gainsbourg – com quem não possui qualquer tipo de laços familiares – que ao trabalho que a própria mãe, Birkin, fez quando tinha a sua idade. Há uma maturidade assustadora na música de Doillon que a torna difícil de catalogar; se por um lado a sua intenção não parecia ir muito mais além da de fazer um álbum pop, o peso que imprime em cada uma das músicas situa-se numa dimensão que já poucos exploram – é ao mesmo tempo nostálgica, refrescante e intemporal.
Não se sabe se vem por aí sucessor e, se sim, quanto tempo demorará a chegar e o que é que a modelo e actriz fará enquanto esse tempo (não) chega. Mas para já Places garante saciar-nos a sede durante uns bons tempos.