Crítica: “Crónica do Pássaro de Corda”, Haruki Murakami
Isabel Castro

Ainda não encontrei quem me conseguisse descrever as diferenças do Japão, que fosse capaz de explicar, em palavras que constem do dicionário, a razão da diferença. Não falo, claro está, da tecnologia, dos arranha-céus, das meninas excêntricas nas saias e nos cabelos como se ainda tivessem 15 anos quando já os duplicaram, no equilíbrio do sushi e na delicadeza brutal da história. Há no Japão qualquer coisa a rondar a metafísica que obriga ao silêncio, ao falar baixinho, aos passos pequenos e comedidos. Um confortável desconforto.
Talvez Wenceslau de Moraes tenha sido o melhor narrador estrangeiro de todos os que li, apesar de nessa altura as meninas ainda não usarem as saias às pregas que emprestam colorido mas não trazem mistério. O que não se explica está na obrigatoriedade de solidão que os ares nipónicos sugerem. E isso não está nos livros – está no fim das histórias das pessoas. E Moraes sabia disso.