Ambos lançaram álbuns este ano, e ambos estão em tour, se bem que de lados diferentes do Atlântico (ainda não perdoámos os Foxygen pelo cancelamento da tour europeia e consequente não-comparência no Primavera Sound). Tanto a banda de Sam France e Jonathan Rado com o holandês Jacco Gardner lançaram novos videoclipes recentemente, para No destruction e Chameleon, respectivamente – o primeiro imensamente colorido e assente numa estética indubitavelmente norte-americana (entrevemos ali um desencantamento do American Dream parente de Hunter S. Thompsons e afins), e o segundo num b/w sóbrio, se bem que não menos hipnotizante. É de ver e suspirar por uma visita a terras lusas.
Música
A proposta musical imperdível para o mês de Maio acontece já no próximo fim-de-semana em Lisboa e Porto. William Basinski vai estar no Teatro Maria Matos e na Culturgest para dois concertos que visitarão um percurso de longos anos na exploração das sonoridades imateriais que fizeram do seu nome um dos maiores da música ambiente das últimas décadas. É dele o clássico The Disintegration Loops, obra-prima lançada em volumes e que é o apogeu de uma carreira que continua a dar frutos. O mais recente, Nocturnes, é o primeiro registo depois de algum tempo dedicado a outros projectos colaborativos (participou, por exemplo, na peça The Life And Death Of Marina Abramovic, retratada no documentário homónimo exibido na passada edição do Estoril & Lisbon Film Festival). É mote para a visita a Lisboa e Porto, a 11 e 13 de Maio, respectivamente.
Crítica: “A Bad Wind Blows in My Heart”, Bill Ryder-Jones
Ana Leorne

Há vida depois dos The Coral, e a prova é que a carreira de Bill Ryder-Jones não só sobreviveu à sua saída da banda em 2005, depois de complicações de saúde relacionadas com o stress, como se tornou num dos filmscore songwriters mais fascinantes da nova geração.
Após a banda-sonora de Leave Taking e If…, eis que na semana passada A Bad Wind Blows in My Heart (Domino Records) viu finalmente a luz do dia. Gravado na casa da sua própria mãe em Liverpool, o álbum de Ryder-Jones foi precedido pelo single He took you in his arms, cuja atmosfera unattached respira cidades industrializadas e primeiros arrepios da manhã, os tais que nos arrancam dos sonhos e nos atiram sem aviso para a hora mais fria.
Fauve não é um projecto comum. Tal como pode ser lido no seu site, Fauve é um colectivo artístico, aberto a novos projectos e colaborações, feito de quem o quer fazer e «deseperadamente optimista». Assim, torna-se mais complicado atribuir «culpas» neste vídeo magnífico de Blizzard, cujos oito minutos e meio cruzam a nouvelle scène française com o spoken word, magnificamente ilustrado por imagens de Paris numa fotografia mais-que-admirável. Uma curta, um videoclip…? Peu importe, é Fauve.
Crítica: “Sun Pavilion”, Triptides
Gonçalo da Silva Nova

Som franzino assim de quartinho de hotel.
Simpático, mas nada de especial.
Uma coisinha bonita, que não acrescenta.
Um som de fita, mas fixe. Ouve-se bem.
Quem for do género de escolher bandas e música que mais ninguém conhece nem ouve só porque sim, esta pode ser uma das melhores picks.
Outra: é um beijinho bate-chapas (que expressão pouco condizente com a delicadeza do gesto, do acto), ou, como dizem os brasileiros: um selinho.
Gostei, é um disco que rola para não se prestar mínima atenção, só acompanhar.
Também faz falta. Faz?
Crítica: “Allah-Las”, Allah-Las
Gonçalo da Silva Nova

Parecem aquelas histórias de amor perfeito.
Conheceram-se numa loja de discos e começaram a fazer música numa cave entre as montanhas e a praia, na Califórnia.
É daí a perfeição: é a música que pinta quadros para cegos.
São coisas feitas para quem sente.
Soa bem com exposição exagerada num filme a cores, super 8.
Paixões antigas.
Dos quadros, pinceladas meias que misteriosas enfeitam.
Que disco lindo e viciante, tipo detalhe num sorriso.
Na semana em que os Foxygen disponibilizaram gratuitamente um álbum inédito (segundo o Facebook da banda, gravado entre 2006 e 2007 quando Sam France e Jonathan Rado tinham apenas 15 anos) intitulado Jurrassic Exxplosion Philippic e com umas épicas 36 faixas, foram também lançadas as sessões La Blogothèque. Filmados nas ruas de Paris no início deste ano, os dois vídeos (On blue mountain e In the darkness/No destruction) fazem parte da rubrica Concert À Emporter e trazem um colorido neo-hippie à banda de We Are the 21st Century Ambassadors of Peace and Magic – aliás, a atitude poseur de Sam France lembra Stones nos últimos tempos de Brian Jones e traz à memória o meltdown do vocalista no SXSW, sendo discutível se terá sido esse incidente a causa do cancelamento da tour europeia da banda (na qual estava incluída a presença no nosso país, no Primavera Sound). O certo é que com ou sem dramas internos próprios de uma banda que cresceu demasiado depressa em poucos meses, as sessões live da Blogothèque provam o quão firmes as canções de Foxygen se aguentam com uma guitarra, pandeireta e pouco mais. E uma maçã roubada, que é o plot da história toda.
Surf Rock? Sim sim, mas muito mais. O quarteto feminino de Seattle La Luz declara-se fã de doo-wop e de harmonias vocais à la Chiffons ou Marvelettes, mas também de pesos-pesados da chanson somo Françoise Hardy. Em que ficamos, então? A resposta é dada pelo ambiente neo-retro com um toque de grrrl power do recém-saído single Call me in the day/Easy baby, que sucede ao EP Damp Face, lançado apenas em cassete (!) e formato digital pela Burger Records. E estão em tour – era de passar por cá este Verão…
Já aqui tínhamos falado de Stephanie e Amanda, o duo californiano Bleached que se adivinhava uma das (excelentes) surpresas de 2013. E eis que no início do mês sai finalmente o álbum de estreia Ride Your Heart (ed. Dead Oceans), cheio de imagens soalheiras directamente da Costa Oeste, numa espécie de cruzamento entre o New Wave nova-iorquino dos anos 70/80 e o inconfundível pôr-do-sol do Pacífico, numa good vibration que emana de faixas como este Next stop, escolhido como single de avanço.
Crítica: “Psycho Tropical Berlin”, La Femme
Ana Leorne

E começar por onde? Os La Femme já passaram o estatuto de simples banda e correm o risco de se tornarem numa estética por direito próprio, com uma sonoridade a que chamam – ou que outros chamam, porque nestas coisas da Internet nunca se sabe muito bem quem atirou a primeira pedra – «strange wave».
Psycho Tropical Berlin é o álbum de estreia da banda, mas isso não quer dizer que esteja cheio de inéditos; muitas das faixas são de registos anteriores (La Femme, Hypsoline, It’s time to wake up 2023 e Sur la planche 2013 foram extraídos do EP homónimo que saiu no início do ano e do qual falámos aqui), ou de singles que os La Femme iam lançando em jeito de ensaio para o primeiro longa-duração (La femme ressort, Françoise). Mas isso não torna Psycho Tropical Berlin menos genial.